Bem- Vindo

Bem- Vindo
Queria tanto ser poeta, falar do mundo, do amor... Porque não da dor? Do sofrimento... Da injustiça então... Enfim, falar do meu sentimento

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Quadro Teatral: Fernando no Martinho

Eu a interpretar Fernando Pessoa
 
 
Eu com Ventura Picolé
 
Quadro Teatral: Fernado no Martinho
Pequenos enxertos da peça
Com Luis Paulo, Edna Aguilar, Joana Morais e Carolina Paias
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A vizinha


Finalmente chego a casa,

Faminto e cansado.

O trabalho havia sido extenuante nesse dia

Por muito que o corpo pedinchasse, não possuía tempo para descansar, havia o jantar para fazer, para aprontar.

Pensei numa coisa simples, afinal a fome é o melhor tempero

Bife grelhado soou-me bem e para que não se sentisse só, fi-lo acompanhar de camarões descascados e cogumelos, num ligeiro molho de natas.

Descobri no congelador esparregado e decidi por ele, para uma “higiene alimentar” sentenciei.

Terminado e, de bom aspeto, atirei-me a ele numa degustação sôfrega.

Terminei o jantar, e, francamente mais agasalhado liguei a máquina do café. Tirei um café e fui para a sala, agora sim, sentei-me no sofá a descansar.

Olhei a correspondência. Nada de anormal, faturas para pagar e publicidade.

Liguei a televisão

“ A casa está tão fria”. Cogitei num arrepio! A humidade entrava pelas frinchas das portas e janelas, dando um cariz lúgubre, duma casa mortuária

Liguei o aquecedor a óleo, mas nada me aquecia, levantei-me, fui buscar a manta azul de riscas brancas, que tanto gosto nos dias frios. Mas o desconforto persistia.

“ Vou fazer um chá para me aquecer”. Pensei! Dirigi-me á cozinha, fiz um chá de erva príncipe com um raminho de hortelã. Enquanto o chá afinava, fechei as persianas da porta da cozinha. De caneca cheia, aromática e a fumegar, voltei á sala, ao meu sofá que me reclamava. Tomei o chá em pequenos sorvos, a apreciar o gosto agradável da hortelã. “ Mas que estranho”. Disse para mim “ que se passa comigo hoje? Que frio é este que se me entranha nos ossos e não me deixa aquecer? Estarei doente”? A casa costumava ser um refúgio tão agradável, o meu lugar de paz, a proteção das agitações da natureza e humanas, mas hoje o frio persistia, permanecia.

Lancei a mão ao comando da televisão, na tentativa de desviar o sentido do frio e fiz zapping sem muito interesse nos programas, achava-os tão deprimentes. “ Ou serei eu que estou deprimido”? – Considerei! Não sabia, mas os programas só me aborreciam.

O dia prometia morrer atípico, existia algo que me incomodava, não me sentia bem no meu local elegido e resolvi o que seria impensável.

Ergui-me, vesti um casaco e saí. Procurei na rua o calor afastado e ausente na casa.

A noite havia caído e estava escura.

Aconcheguei o casaco, coloquei as mãos nos bolsos e principiei a caminhar pela rua da Liberdade. Deixei escorregar um sorriso. “ Que ironia, rua da Liberdade, mas sinto-me prisioneiro do frio”. Na luz ténue que os parcos candeeiros imitiam, via-se uma fina névoa de humidade que se fazia sentir. Um pouco mais adiante, uma luz mais calorosa, convidativa, do café da Dona Francisca rompia a noite, iluminando com mais entusiasmo toda aquela parte da artéria. O café estava habitado apenas por dois clientes. “ Onde estarão as pessoas”? Examinei! Encolhi os ombros e segui em frente sem parar, afinal também não me apetecia falar com ninguém.

Mais á frente encontrei o jardim Cesário Verde, que abrangia todo o quarteirão na transversal e que me levava de volta a casa. Resolvi por ele, para arejar os pulmões. A relva estava orvalhada do rocio que caía, o que oferecia um aroma agradável da terra molhada…

“Boa noite”! Cumprimentaste. Mas ia absorvido, extasiado, pelo que considerava ser um outro mundo, um mundo aparte, afastado do betão, da carroçaria, dos carros e sua poluição, não ouvi e continuei. Senti-me a sentir-me bem, pela primeira vez desde que chegara a casa. Esbocei um leve sorriso, “ que aroma agradável”. Dizia em solilóquio! “Aqui rompe sempre uma fragrância adorável, uma mistura a terra e flores”…

 Mas tu insististe Interrompendo o meu monólogo “Boa noite, já não se fala às pessoas”?

Mesmo á meia-luz, vi-te luminosa… gabardina cor creme, toda abotoada, lenço azul ao pescoço e umas botas quase até aos joelhos, seguravas o teu Boris pela trela. “ Não me está a conhecer”? Perguntaste dando uns passos acercando-te um pouco mais.

Claro que te conhecia, eras a Sandra, do prédio em frente, tantas vezes te vi passar na rua, entrar e sair de casa. No café da Dona Francisca, a tomar um café, o pequeno-almoço ou lanche. Cabelos pretos, brilhantes, longos, ligeiramente ondulados, olhos rasgados de mel, nariz levemente arrebitado, boca sensual, lábios carnudos, um queixo bem decidido numa pele luzidia, morena, tão apetecível. Claro que te conhecia! Tantas vezes possuí desejos de ti. As ficções que havia tido contigo, no sofá na sala, á noite ao deitar. Como havia imaginado esse teu corpo curvilíneo, escultural na minha cama. Mas as nossas conversas nunca tinham passado de bom dia, boa tarde ou boa noite. E agora, finalmente, havias quebrado o silêncio, aproximaste-te de voz macia, num cumprimento á muito apetecido.

Ficámos um pouco a conversar. Falei-te do frio que sentia em casa. Achaste graça quando disse que tinha vindo amornar na rua gélida. “ Está muito poético.” Disseste sorrindo e adicionaste. “ A solidão é fria”. A noite álgida esfumou-se, evaporou-se, fiquei sem frio, a tua voz era quente, apaixonada e apaixonante.

Mas tu, tu lembraste-te que o frio piorava e timidamente convidaste-me para ir a tua casa tomar algo quente. “ Não leva a mal pois não”? Perguntaste ruborizada, estavas indecisa pela hora, eram vinte e duas horas e trinta minutos. Sorri do teu embaraço, mas uma felicidade enorme, sem limite da tua iniciativa.

O hall de entrada do prédio era amplo, tecto falso em madeira, com projetores embutidos. Á direita um vaso de porcelana fina, suportava uma palmeira fresca, exuberante que chegava quase ao tecto. O elevador levou-nos ao segundo andar. Entramos em casa. Na entrada, logo em frente, existia uma consola wengué, com uma escultura em mármore de sessenta centímetros. Réplica da “Banhista” de Etienne-Maurice Falconet. Uma tela abstrata em motivo preto e vermelho combinava na parede por cima da consola.

Indicaste uma porta á esquerda que dava para a sala. A sala estava quente e ouvia-se o crepitar do lume que ardia brandamente na lareira. “ Sente-se”, convidaste. Despiste a gabardina. Uns seios redondos, eretos, pareciam querer romper a camisola de lã branca. Perguntaste o que desejava tomar. Optei por um Baileys sem gelo, acompanhaste com o mesmo. Foste ao home cinema e colocaste um CD de Adele. Sentaste-te no sofá no instante em que a sala era conquistada por uma música suave, agradável. "Someone like you". A saia subiu bondosamente acima dos joelhos, revelando umas pernas torneadas, tez hidratada, luminosa.

Lembro-me de sentir um baque, um rubor subiu-me às faces com a aparição das tuas pernas esguias, elegantes, aprimoradas. A boca secou-se-me. Senti desejo de pousar a mão no teu joelho de pele suave, subir nas pernas esbeltas, aprumadas, num afago contido, numa carícia delicada. Mas renunciei a tempo, não podia deitar tudo a perder e logo agora, que as coisas residiam a caminhar numa orientação favorável. Engoli um trago, devagar, a saborear o Irish Cream, olhei o copo em aprovação, para camuflar o embaraço com que me defrontava.

Houve um momento de silêncio constrangedor, de nervosismo quase inquietante, por falta de assunto, talvez, não sei. Apeteceu-me convidar-te a dançar, sentir o teu corpo sinuoso colado ao meu, mas temi ser inconveniente e estacionei calado. Levantaste-te para avivar o lume. Libertas-te uma fragrância a flores adocicadas de gardénias e jasmim, escoltado de um bálsamo melífluo de vanilla que me toldou os sentidos.

Um calor abrasador tomou conta de mim, um desejo quase incontido invadiu todo o meu ser, que me tolheu os movimentos, desligou meus pensamentos. Sentia o corpo dormente, mas, um impulso permanente.

Tornaste ao sofá, chegaste-te mais próximo, colada a mim. Senti um arrepio, uma vibração, uma apetência de ti, uma seiva febril, uma vontade sem fim. De gestos indomáveis, enleei-te, inflexível, beijei-te, lascivo. Não resististe, respiravas descompassada, irregular, respondias às caricias de forma igual. Devagar, pausadamente libertava-te das vestes, como rosário nos dedos rezando as preces. Olhei o altar, corpo serpenteado, seios redondos, adornados, por mamilos rosados, púbis trigueira. Não aguentei, entrei, pela noite dentro continuei e no calor do teu corpo adormeci…

 

Luís Paulo

 

 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Muro de silêncio


O local achava-se ajardinado de silêncios, silêncio esse, amputado apenas pelo chilrear dos pássaros, onde a aragem clara, límpida de paz, algemava o ambiente.

Os lírios, convencidos, de laranja vestidos, regozijavam-se com o perfume das begónias e crisântemos

O sol brilhava no pináculo das árvores, coava pelos ramos dos plátanos, fazendo desenhos vivos… abstratos

O tempo ali acontecia devagar, passeava em passo lento, sem pressa, indiferente à época desinquieta, sem a ansiedade dos climas inconstantes, das ideias insalubres de homens errantes.

Indiferentes á vagarosidade consentida, da vida do homem pobre, triste e desavinda, no palácio de são bento, os cães, de barriga cheia, versejavam em latidos, incólumes á dor, ao sofrer das pessoas que insidiam.

Com uivos rançosos, bolsos a abarrotar, votam as leis, é preciso muito ladrar, as leis não os podem prejudicar, têm de ter uma alínea para os livrar

Então, os cães saem, sem açaime, roucos, não dos remorsos, transpiram os ladridos do acordo… polícias vendidos guardam-nos do povo faminto, não podem fazer mal ao seu Filinto Elísio

Os filhos dos cães têm liceus privados, piscina e equitação

No outro lado do muro, no local dos silêncios, um homem revolve os bolsos não tem dinheiro para os mantimentos… seus filhos não têm pão

 

Luís Paulo

 

 

 

 

 

 

domingo, 11 de novembro de 2012

um dia de outono


Há dias assim,

Amanhecemos tristes, amargurados, sem base aparente, procuramos um motivo, o porquê de tal acordar, qual a razão que originou esta mágoa, esta dor interior, esta tristeza sem fundamento e não encontramos.

Eram onze horas e quarenta e cinco minutos, havia algum tempo que me tinha levantado e estava nestes preparos, triste, desgraçadamente triste, parecia que o mundo ruía sobre mim.

Chovia lá fora. Aliás, foi uma constante durante a noite e continuava, ininterrupta, de facto um dia emblemático de outono. Abri a porta da varanda, fui agradavelmente agraciado por uma aragem fresca, lavada. Um aroma a terra molhada e uma fragrância a eucalipto e pinheiros, trazidos pela brisa suave que acorria, reconfortou-me os pulmões necessitados. A relva estava mais verde, saciada da irrigação constante. As folhas já gastas, sem vida, caiam das árvores, devagar, oscilando para direita e para a esquerda, pairando, até se firmarem no chão, terminando assim o ciclo.

 Era um dia, daqueles dias agradáveis de se ficar em casa a ver chover. Um dia lindo de outono! Sim, o outono também é uma quadra linda. Chovia, mas eu estava em casa, de robe, quentinho, nada me faltava, ou pensava que não, porque aquela tristeza ditava o oposto. A melancolia prescrevia outra razão.

Ouvia Sarah Brightman, “Eden,” que música agradável, suave, olhava para a rua, ali estava outro éden, mas agora literal. Tinha todos os motivos para estar feliz. Pensei inclusive nas pessoas carentes, que nada têm e ainda assim transportam no semblante um sorriso… triste é verdade, mas um sorriso. Então porque estava eu naquela angústia?

Francamente não sabia e para surpresa, experimento involuntariamente nos olhos um ardor lacrimal a sal, lagrimas isoladas que teimam aparecer, não caem, não rolam, ficam ali, teimosas, e que me fazem ver, um mundo alagado de ausência e de dor, que há muito tento esquecer.

A memória leva-me em viagem a acontecimentos longínquos, afastados, quase que esfumados pela distância, mas culpados desta minha estância. Mas a ti, é curioso, a ti vejo-te claramente, tão nítida, como se o tempo não passasse, é como se o sol parasse, tal é a retidão da memória, que me incorpora uma sensação de contínuo vazio, de que algo ficou por dizer, por ditar, daquela que foi a nossa história.   

Já completava tanto tempo que não pensava em ti, segui a vida amanhada para mim, esqueci, e vivi, umas vezes bem, outra talvez, não sei. Mas há dias, como hoje, que dou por mim, assim, numa dicotomia, mente coração. O passado, fortemente entrincheirado, que disputa o presente, que vence, e me deixa destroçado. O coração! quererá ele ver-me derrotado? Ou será isto amor camuflado que mantenho reservado? A mente dita o contrário, quer ver-me animado, mas neste duelo desigual, o coração traiçoeiro deixa-me desolado

Por isso o meu despertar sem jeito…

Sem graça… sem a alegria no caminhar,

É saudade daquele tempo,

É saudade de te amar

Sinto-me o que me resto, do pouco que tenho quero desistir

Sem ti, meu doce ignoto poema… Óh! minha melíflua poesia,

Sem ti, sofro derrotado, a saída é partir 

Áh! Mundo sovina de amor, farto em desafeto, empanturrado de dor

Até quando tenho de esperar este luto passar?

Até quando viver este mundo de horror?

Apenas mais um pouco que o tempo é curador e tudo vai normalizar.

 

Luís Paulo

 

 

 

 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Oceano estéril


Nas encostas ingremes
Nas falésias
Oiço ecos das suas récitas
Uvas no cesto a vindimar

Alegres, cheios de amor, cantam estes homens o seu labor
Têm faina, têm de comer
Época sem receio, três meses sem temor

 Gaivotas soltas em voo picado

No céu azul nacarado
Entoam alegres o seu grasnado

 O mar,
águas de sal,
manto livre extenso e anilado
por homens rudes lavrado,
com redes por arado
debulham o mar

 P´la alvorada
cansados da jornada
rosto encovado da noite dura e apertada
Agarrados á traineira, a sua enxada

Vêm em terra os filhos, ansiosos da chegada
Andrajosos, com frio e olhos de fome
Num lamento choram e clamam
Vem vazia não trás nada

 
Luís Paulo

 

 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Efemeridades


Principiava as primeiras horas do dia, daquele mês de maio,

As andorinhas madrugadoras, adejavam já num bailado ao tom do aroma primaveril,

Aparecias com passo pouco firme, como de uma criança, cingida de inocência… de inculpabilidade…

Mas, um brilho de aventura nos olhos denunciava essa aparência, essa aragem inócua

Penetravas na alcova, e esse mundo impoluto, de candura, de castidade, de lisura tombou. Caiu quando te entregaste abrasada, embriagada de paixão, num amor intenso. Amavas num compasso enérgico, quase violento, num ritmo entusiástico como um faminto á procura de alimento.

Gostavas de viver no limite, a maior parte do tempo no inverso da verdade.

Os poros do teu corpo transpiravam falsidade para com o teu mais próximo, a quem devias lealdade e na cama deitada com a cabeça no peito dos teus amantes, praticavas o teu sorriso tímido, impoluto e dizias ao telemóvel com aquela voz frágil que estavas a trabalhar, “não esperes por mim que vai durar até alto da noite”- mentias… “vou passar o dia com uma amiga”

… Um, falou-te do incómodo que era para ele ouvir essas falsidades, que devias atender o telemóvel e falar noutro local e a sós. Dizia-te que as tuas palavras eram punhais cravados nas costas de quem em ti confiava, porque as anunciavas á frente de um terceiro. Revelou inclusivamente que iria ter dificuldades em confiar em ti, sentiu vergonha de si e do que fazia e das tuas mentiras sem fim. Mas tu rias-te, - “que disparate” – dizias. Mas nunca mais confiou em ti e nunca mais te quis ali.

Há quem recorde francamente aquele dia que te viu na praia. Semblante carregado, indiferente ao mar, às crianças que chapinhavam na água, ao sol que tão generosamente brindava todos os veraneantes, até o cheiro delicado do mar, a maresia, parecia ser-te detestável. Não fizeste um esforço, não te mostraste agradável ao teu mais intimo, ar carrancudo, pesado, que indiciava bem o que te ia na mente, pensamentos espúrios, como águas que correm para um mar de pecados, noites voluptuosas na cama com os amantes

Nessa tua imagem distante, desligada, ficou bem patente, ficou bem assente, que sonhavas apenas com amantes e no prazer prepotente, mas eras apenas uma mulher amarga, infeliz e com amor ausente…

 

Luís Paulo

 

 

 

sábado, 27 de outubro de 2012

Filhos do Infortúnio


Vivo em sonhos, como quimeras abstratas e inalcançáveis

Os dias correm, evoluem para lugar nenhum, como se parassem na hostilidade do tempo, em que ouço os gritos dos mudos em surdina e aplaco a ira divina. Contra seres existenciais estragados, fora de validade á muito e acorro a um deserto de opiniões, de pareceres, e tento mitigar a dor, no horror que alimentam, e parto, parto a um rumo insondado das levezas que o seguram

Sinto a paz dos homens que fazem a guerra, como dias negros de chuvas diluvianas, dias que transborda as misérias, na sensatez rara de mentes que prolifera,

Obliquamente a estrada segue numa aparente inocência, seres esquivos de silhuetas medonhas, fazem-se ouvir nos cantos do mundo e matam de fome os filhos do infortúnio.

Se o período morresse e a tempestade parasse, se o sol agisse e o mundo gritasse, se os pesadelos caíssem e os sonhos deleitassem, se os pérfidos tombassem e os leais se levantassem, o mundo agradecia e às crianças resolvia todo o mal que lhe aplicassem

Mas dias claros se aproximam, se avizinham velozes e inexoráveis, num assombroso amanhecer, Naquele que é a estrela-d’alva

 

Luís Paulo

 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Quem és Lisboa


Sou caminhante nas terras do nada

 Como a névoa fátua, também sou passageiro

Nesta estrada fria, triste, sinuosa

Na minha terra sou estrangeiro

Percorro dia e noite ruas descalças

Em busca de calor humano

Dos prédios de esquinas polidas

Meus olhos só vêm desgraças

Lisboa que foste menina

Aos olhos dum poeta verdadeiro

Hoje carregas a desgraça

Que se vê no mundo inteiro

Fogem de ti os teus filhos

P`la vergonha de quem te lida

Partem, vão para outros lugares

Em busca de melhor vida

Com lagrimas nos olhos

Vão-se, ficam saudosos

O tempo esquece o tempo cura

Começam de novo, são felizes

Sem aquela amargura

 

Luís Paulo

 

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

E a seguir ás noites?


A seguir às noites,

Vêm sempre misteriosas madrugadas.

Desperto,

Olho o teto, teto falso, em madeira, pareceu-me de mogno pela sua textura castanho-avermelhado. Não reconheci aquela cobertura, nunca havia estado num quarto de teto semelhante. Senti-me confuso, tinha a certeza de ter acordado mas parecia que vivia um sonho, uma irrealidade. Surpreendido, olho em volta, as paredes brancas, imaculadas, com alguns quadros dispostos por elas, quadros que não recordo que nunca vi e que aumenta a minha perplexidade. A minha surpresa cede lugar a sobressalto, sinto-me desassossegado, não percebo onde estou, não conheço este local, a expressão destes aposentos, esta casa é-me totalmente abstrata, metafisica, apalpo uma sensação de desconhecido fora do real.

 Na mesa-de-cabeceira, avistei um radiodespertador que marcava dez horas e vinte minutos, no chão, descubro uma jarra de vidro partida em vários fragmentos, várias rosas vermelhas encontram-se espalhadas pelo quarto.

Amplio o desconforto, “que aconteceu aqui, a jarra caiu, ou alguém a partiu propositado com estrondo no chão motivado por alguma discussão?”

Estou deitado, nu, o lençol de cetim carmesim tapa-me até á cintura, ao meu lado o lençol esboça uma silhueta, esbelta, curvilínea, escultural, os cabelos desalinhados escondem metade do rosto estético e seguem tombando sobre uns peitos firmes, redondos, de pele aveludada

Ergo -me ligeiramente, socorro o corpo cansado e perplexo com o cotovelo direito e observo esta mulher sublime mas misteriosa. Encontro-me num lugar desconhecido deitado com uma mulher estranha.

Após um breve período a observar, serenei da minha apreensão, confesso que atraído pela visão matinal, o momento não oferecia perigo, antes pelo contrário, eras tranquilidade, paz, o encanto, a serenidade, a pacificidade, o silêncio em que respiravas, apenas o agradável compasso do teu peito mostrava que dormias, que vivias.

Abriste os olhos, um verde-marinho que me agarrou, me pregou ainda mais ao leito, talvez te sentisses espiada no subconsciente e acordaste, não sei, mas sorriste para mim, notaste o meu olhar de espanto, de interrogação e inquiriste: Que se passa, porque me olhas assim?

Apeteceu-me dizer que era a tua beleza que me queimava, que me abrasava, que eras a mulher mais linda que já havia visto. Mas não, num mar de incertezas, mas nos ombros o peso das certezas, apenas perguntei: quem és? Onde estou?

O teu sorriso delicado, encantador, aos poucos esvaeceu, ficaste com ar sério, os olhos apresentavam aquele temporal que acontece subitamente no mar, ficaste triste, sentiste-te infeliz. -Não te lembras?- Perguntaste. Como me mantive calado, continuaste. – Não te lembras de ontem, que passámos o dia juntos? Conhecemo-nos na Fonte da Telha, conversámos toda a tarde, fomos nadar juntos e acabámos por jantar numa esplanada á beira-mar? Depois fomos a um bar, ouvimos música ao vivo, não te lembras? Bem que eu disse para não beberes tanto, mas tu continuavas, falaste que estavas a atravessar um mau momento e bebias…

A minha mente começou a clarear, pausadamente, até que aos poucos conquistei a memória e lembrei de tudo.

Estavas deitada na toalha a ler um livro, protegida pelo guarda-sol quando cheguei, vi-te, fiquei ali, lembro que pensei que eras a coisa mais linda de toda a praia e até mesmo do mar.

Não vias ninguém, estavas no teu mundo, ou no mundo da história do autor, era uma história de amor e eu olhava para ti, sem sentir cansaço, por vezes embaraçado, com medo de te embaraçar, mas tu não reparavas, ou fingias não reparar, não sei…

Até que surgiu uma oportunidade que aproveitei. Uma bola de uns indivíduos que jogavam perto do areal, apanhou-te. Recordo que o teu corpo, o teu desejável corpo e o livro que lias ficaram sujos de areia, mostraste-te desagradada, falaste que deviam jogar mais longe, fui em tua ajuda e a partir daí ficámos a conversar sobre diversos assuntos. Do romance que estavas a ler, “Segredo de uma Promessa” de Danielle Steel, falámos de várias rubricas, diferentes temas, terminámos a falar de poemas, convidei-te para jantar… Foi assim… agora recordo perfeitamente.

Sinto-me miseravelmente envergonhado, pergunto atabalhoadamente se tivemos algo durante a noite, falaste que sim, que tinha sido muito agradável. Não resisti, toda a minha inquietação cedeu lugar á confiança e á alegria e amei-te com deleite mesmo ali…

 

Luís Paulo

 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Tudo isto é Poesia


Poesia não é só versos,
prosa e nem sempre rima

Poesia é tudo o que a vida nos dá e nos ensina

Poesia também é o ar que respiramos e nos dá vida
Poesia está numa árvore, que nos oxigena, nos dá fruto e nos sacia

Poesia é mar,
profundo, misterioso, enigmático, povoado de vida.
Inspirador de poetas, de pintores e outros autores.

Que nos faz pensar, meditar na existência e até chorar.

Que nos faz sorrir, conversar com amigos, brincar,

Habitáculo de amantes que planeiam amar.

Que descobriu novos mundos, novos lugares

Poesia é o mar que tem o privilégio de nos fazer sonhar.

Poesia é o céu
vestido de azul diáfano, estendido, num dia de estio, que a vista algema, que nos fascina,

Poesia é o sol que nos aquece e alumia

As noites!
Os mistérios que as escolta e nos enfeitiça, o céu, aquele lençol escuro, sideral, as multidões de constelações, num brilho cadente cheio de magia,

A lua,
Suspensa, na expansão do nada, na sua extensão de luz que alumia a noite, responsável pelos efeitos de maré, inspiradora dos amantes que convida a amar, dos sonhadores que dos olhos da lua não demovem pé

Poesia é a lua
anfitriã do homem, que o banqueteou com a mais sublime visão do planeta terra, a mais perfeita esfera, cheia de cor e semblante de ternura

Poesia é tudo isto e muito mais, que a minha mente não alcança jamais

 

Luís Paulo

 

domingo, 21 de outubro de 2012

Tonalidade etérea na Baía do Seixal


O céu plúmbeo,
Refletia nas águas o cinzento
Do outono  
Que se avizinhava

Águas escorreitas afluíam p`lo tejo em ondas mansas, cercadas de vida, tomando e invadindo de tonalidade etérea a baía do Seixal
Toalha liquida, espelhenta e cristalina, de ritmos constantes em serenas nuances
Azul profundo, por vezes

Outras, aniladas de azul celeste
Lavadas,

Ainda outras, tom de pérola, ou ardósia… exangues,
Carminadas

Anfiteatro de transparência e excelência pura, onde ninguém fica indiferente, nem o mais indigente, ao murmúrio cadenciado, ministrado pela enchente

Os esteiros acenam um dos mais harmoniosos e belos acontecimentos no curso do rio, onde num sulco mais profundo desemboca o rio judeu

Habitáculo transitório, onde as aves migratórias também elas vêm apreciar a mestria, o requinte diáfano do ambiente.

O flamingo,  
o alfaia,
o perna-longa,
a garça e o pato-bravo
ali, procuram abrigo e alimento,

Vêm todos os anos, num voo alegre, como dançando o ultimo andamento.
Van Gog,
Miguel Ângelo, ou
Leonardo Da Vinci,

Se vissem esta beleza
Render-se-iam vencidos
Ao maior Pintor da natureza 

Luís Paulo

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Não acredites meu amor


Vejo teu rosto preocupado.
O olhar ausente,
A tua boca de mel e sorriso suave
está triste

Sinto-te o corpo rígido, inscrito de incertezas
os braços estão pendentes, tens as mãos frias
Que tens?
Fala comigo meu amor
anda,
vem ver o mar,
observar a lua a refletir o manto sombrio
a clarear

Anda,
colocar nas estrelas as dúvidas que não param de te assaltar
anda,
vem,
pedir às ondas, sua sabedoria para te elucidar

E se não for suficiente,
se as tuas duvidas teimarem
meu amor
dá-me permissão para te afagar
consente que seja eu a elucidar.
Essas estórias vis que te contaram
de gente miserável e intratável
tem como objetivo nos separar

Lembras-te meu amor?
Que te chamava luz
que dizia que eras uma candeia a colorir no alto e que amanhecia a minha vida?

Lembras-te?
Que te dizia,
que havias endireitado a minha vereda, o meu caminho?

Lembras-te?
Em como todos os dias anuncio o meu amor por ti?
sinto o peito apertado,
o coração sufocado num ritmo acelerado
desanimado,
porque estas tuas suspeitas, está a dar cabo de mim,

Não acredites meu amor,
em boatos de mentes insalubres,
de gente supérflua e traidor
que tem inveja do nosso amor

Meu amor

 

Luís Paulo

 

 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Não sei se sou feliz


Naquele tempo a vida sorria-me,

Ia braço-dado com meu pai, numa analogia robusta, incansável, onde acolhia o carinho, os conselhos que me transmitiam a força necessária para os meus problemas costumeiros próprios da idade e da inexperiência que me atacavam e cingiam no dia-a-dia.

Ia braço-dado conjuntamente com meus amigos, amigos verdadeiros, num enlace espontâneo, sincero numa afeição transparente e pura, onde as recreações, os passatempos eram tão sadiamente só nossos

Viandávamos por uma estrada estreita, sem a opacidade e a licenciosidade que a maioria elegia e amava, que convertiam o amor em conduta desenfreada. Não! Os nossos caminhos eram outros caminhos, não que andássemos numa redoma de vidro, estivéssemos num pedestal ou usássemos uma auréola. Não! Éramos homens jovens como todos os outros, mas apenas mais sensatos, acatando as leis dos progenitores, as leis dos homens, para que não caíssemos na desonra e na vergonha de sermos violadores das regras sociais. Não! Os nossos caminhos eram mais escorreitos, harmoniosos, abertos, cristalinos e abastecidos de paz.

Nos sonhos? Áh! Nos sonhos voava livre, com a liberdade dos pássaros.

Lentamente deixava a estrada, as ruas barulhentas com a sua poluição e subia alto aos céus bem acima da terra e respirava a lucidez do ar, tocava as nuvens e observava como tudo era pequeno na terra. Os edifícios mais elevados eram apenas meros retângulos na vertical. Os montes mais grandiosos eram somente sulcos lavrados pelo trator do homem, ou esteiras produzidos pela água da chuva que corria em direção do mar. Liberdade essa concedida por acatar as regras elementares da sociedade, por reconhecer que só se é verdadeiramente livre quando acatamos a autoridade das lei e voava, voava livre, protegido pelas leis de meu pai e dos homens.

Hoje, sinto saudades daquele tempo e não sei se sou feliz. Assiste-me sérias dificuldades em definir a felicidade

Se a felicidade for medida por filósofos, que definem as emoções associadas á felicidade empregando a palavra prazer.

Aí pergunto: felicidade é viver intensamente um dia de cada vez? É a ausência de esperança e de objetivos? É a busca incansável de prazeres efémeros? É carência de amor, de paz e de liberdade?

Sim! Se a felicidade é tudo isso, sim sou feliz.

Mas, e se a felicidade for algo mais?

Se for baseado em estudos na psicologia em que investigadores desenvolveram diferentes métodos e instrumentos, a exemplo do Questionário da Felicidade de Oxford, para medir o nível de felicidade de um indivíduo. Esses métodos levam em conta fatores físicos e psicológicos, tais como envolvimento religioso ou político, estado civil, paternidade, idade, renda etc. aí a felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vai desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior a definir sua natureza e que tipo de comportamento ou estilo de vida levaria à felicidade plena.

Aí nesse caso pergunto:

Ser feliz é ter a esperança e acreditar num Deus superior a nós?

Sim, acredito!

É ter uma família sempre por perto?

É ter alguém á espera, quando chegamos a casa exaustos no fim de mais um dia de trabalho árduo?

É o acontecimento de ao jantar partilharmos em família as experiências do dia?

É o caso de ao deitar, ouvirmos aquela voz melíflua, suave, tão próprio das crianças, que nos alivia o coração, que nos lava a alma, que nos diz: Pai! Que corre para os nossos braços num chi-coração forte, apertado, que nos liberta de todo o cansaço, da ansiedade do dia, do medo do amanhã, que nos faz lutar?

Se a felicidade é isso, então não! Não sou feliz

Não sei se sou feliz. Senão sou, tenho saudades do ser…

 

Luís Paulo