Bem- Vindo

Bem- Vindo
Queria tanto ser poeta, falar do mundo, do amor... Porque não da dor? Do sofrimento... Da injustiça então... Enfim, falar do meu sentimento

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Um Novo Natal


Havia despertado cedo.

A noite tinha sido inquieta e o sono agitado.

Acordara cansado, possuía o rosto suado, os sulcos violáceos á volta dos olhos acusava a fadiga da noite desassossegada. Levantou-se com dificuldade. Subiu o estore da janela do quarto e olhou o céu. Surpreso, viu que o sol brilhava já o começo do novo dia.  

Intuía que alguma coisa de anormal estava a acontecer, era como se um sexto sentido lhe acenasse algo de invulgar. E este sol, este estio, testemunhava a sua incerteza.

Era Natal, época comummente de frio, em alguns lugares inclusive a neve dava um perfume especial á quadra, mas, invulgarmente ao habitual estava uma manhã de estival.

Intrigado e curioso, arranjou-se e saiu á rua. O sol ainda jovem acariciou-lhe o rosto barbeado, o que lhe despertou maior apreensão. Estranhou também a ausência da neblina causada pelas chaminés e da essência frequente das lareiras.

Iniciou a caminhar pelo passeio a descer a rua. Preocupado, olhava furtivo ao seu redor. Todo o seu rosto era incredulidade. Tudo era silêncio. Não acontecia aquele burburinho das filas para as compras, para os presentes, para o bacalhau, para o marisco e para os doces. Ao contrário do que era prática, nas caixas ATM não faltava dinheiro.

As pessoas passavam e desejavam bom Natal… boas festas. Mas não era aquele retinir de bom Natal hipócrita usual, em que o hálito de amor passava e o resto do ano esgrimiam conveniências, lucros e ganhos desonestos. Não era aquele desejar falso de Natal, em que as guerras de interesses se entrincheiravam, em que as quezílias retornavam, assim que a quadra passasse. Depois, seguidamente chegava dezembro, o mês do armistício, a hipocrisia regressava e o amor espalhava-se. Não! Não era esse desejar de Natal! Era um Desejar de Natal franco, sincero e cheio de amor.

Caminhava pelas ruas e o desconforto inicial principiou a falecer. As pessoas falavam-lhe de uma forma franca, leal, de uma forma afetuosa, com sentimento puro na voz. O dia pareceu-lhe mais limpo, o sol pareceu-lhe brilhar com um brilho diferente, começou a sentir-se bem, sorriu, pareceu-lhe que respirava autêntica paz.

Foi com gáudio que contemplou que o Pai-Natal não vinha gordo, empanturrado de bacalhau, de marisco e de doces. Não aparecia carregado, com dificuldade em andar para entregar os presentes aos meninos ricos, presentes caros, esquecendo-se das crianças pobres, desfavorecidas, que passavam frio, que passavam fome e que nada tinham. Crianças que não imploravam consolas ou computadores, não rogavam telemóveis ou bicicletas, bradavam apenas em silêncio um casaquinho, um cobertor, meias, sapatinhos e uma sopinha para aquecer a alma.

O que viu foi um Pai- Natal isento, um Pai- Natal que não diferenciava os ricos dos pobres, um Pai-Natal que em lugar do saco dos presentes, trazia o coração cheio de amor, e oferecia esse amor com a mesma simetria para com todos.

As pessoas acercavam-se dele e mostravam-lhe um mundo novo. Um mundo onde a ganância, o odio, as aversões, as antipatias, as lutas e as guerras de interesses haviam sido descontinuados. Um mundo em que todos juntos haviam extinguindo a pobreza, a fome, a violência. Um mundo em que a lei era o amor. Um mundo em que as coisas anteriores haviam passado.

O coração encheu-se-lhe de gratidão e alegria. Sorrindo, com as mãos nos bolsos, seguiu a assobiar uma canção de Natal.

 

Luís Paulo

 

 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Saudades

Hoje, vou descansar as saudades fora de mim...
Não quero pensar em nada.

Luís Paulo

sábado, 2 de novembro de 2013

A voz do Silêncio


É neste silêncio que ouço a tua voz,

Sussurro cálido que chega do frio escuro do meu quarto e invade a minha alma. Palavras simuladas, deléveis, de promessas que segredavas que ficaram por realizar.

São quatro da manhã e não me deixas dormir. Do relógio, ouço os passos quietos do amanhecer, suaves, como cristais, que brilham a memória do tempo: Memórias diluídas em meras lembranças, mas que a tua voz remexe e não me deixa esquecer.

É assim desde á muito,

A tua voz vem continuamente no silêncio da noite. Avizinha-se devagar de início… muito devagar… melíflua, com timbre agradável e harmoniosa antes de conquistar a minha mente numa gritaria guerreira. A tua voz vasculha os meus pensamentos, e num diálogo mental, atiras a desordem, o caos e a guerra é estabelecida na minha alma. A minha noite calma é interrompida e o meu sossego vandalizado. A tua voz é como um nó górdio que me fere e me rouba a paz. No meu leito inquieto, sinto o sabor a sangue de dor do meu coração, e o meu corpo deitado é terra queimada.

Ainda ontem o silêncio teve este simpósio comigo. Nesta dicotomia… nesta guerra do pensamento, peço-te sempre que me exorcizes de ti.

Venho a repetir-me.

Gostava tanto de olhar o teu rosto, olhar os teus olhos e dizer as coisas que ficaram por dizer…

Se um dia voltares, trás contigo a justiça, ou então, vem calada com o silêncio dos íntegros.

Porque eu de ti quero apenas o que me roubaste: os meus sonhos, a minha alegria, a minha paz.

Pensas devolver-me as noites que não dormi? A verdade? Pensas devolver-me a verdade? Não! Eu sei que não! Não existe em ti verdade. Nunca foste amiga, foste apenas alguém com curiosidade, querias saber como amanhecia, como eram os meus dias na minha intimidade.

Tenho esta luta comigo, e a merda das lágrimas não param de cair. Sim choro! Choro, mas não sei que choro é este, não sei que indefinição é a minha alma. Não sei se é um choro de algum resto de amor que guardo por ti, se é um choro de raiva, ou se choro apenas com pena de ti. Mas choro publicamente, porque tu um dia foste as margens do meu rio.

 

Luís Paulo

 

domingo, 20 de outubro de 2013

Éden

O teu olhar,
reflete o jardim do éden
Importas dos montes um aroma selvagem
Teu corpo nu, sinuoso,
implode de desejo,
cegas de paxão!
Teu lábios são pétalas de amendoeira em flor,
que me roçam em blandícias ardentes
És a estro da noite,
sereia do meu mar
és flagilidade dum poema
és estória por inventar
A lua
olha-nos,
cobiça-nos,
Nadamos nus na enseada,
amo-te na noite

Luís Paulo

Pintura de Richard Johnson

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Indispensavél á vida


Existe em mim apenas o indispensável á vida,

Tudo o resto é um vazio, um desapego material, uma dormência de interesses

 

Luís Paulo

Tranquilidade


Hoje sinto-me tranquilo,

O sangue circula-me suave e sereno, como um rio manso, que corre para o mar autunal

 

Luís Paulo

 

Depois Daquele Dia


Depois daquele dia, não tenho sido mais eu!

Minha vida tem sido uma vida sem vida. Vida apática, cansada, como se caminhasse de um lugar para outro e não chegasse a sítio nenhum. A minha vida, depois daquele dia, é uma vida que se tem ajeitado apenas a existir. Está vazia, como se fosse só no mundo, órfã, sem ter ninguém á sua espera.

Quando pego naquilo que sou eu, e sigo a caminhar pelas ruas de sempre, caminhos de outrora, caminhos que sempre andei, que elegi desde á muito, ouço… parece que um burburinho… noto como que, uns olhares… olhares simulados, cúmplices, como se, se voltassem e olhassem para mim. Como se me apontassem o dedo, e fico com a vaga impressão que se riem de mim, que me gozam pelas costas, num gozo gratuito, voluntário.

Odeiam a audácia de não me deixar instrumentalizar. Estranham o meu silêncio, o cuidar apenas da minha própria vida. Intrigados, de sorriso viciado, falam de mim como se fosse de outro lugar, de outro planeta.

Ainda hoje sinto feridas na alma, carrego-as como herança pesada desde aquele dia. Agora sigo com os olhos no chão, envergonhado, de viver num mundo de humanos desumanos, e arrasto a vida á espera dum novo dia

 

Luís Paulo