Bem- Vindo

Bem- Vindo
Queria tanto ser poeta, falar do mundo, do amor... Porque não da dor? Do sofrimento... Da injustiça então... Enfim, falar do meu sentimento

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Um poema, uma vida


O som da manhã é o ecoar dos passos e as vozes fantasmas a rasgar os corredores frios e os corações agrilhoados. É o tinir metálico das chaves, é o “bum” do ferrolho que se abre, é o som insípido e espaçado das embocaduras
É o silêncio que se esvai.

Depois,
o cheiro mesclado que se mistura e se vai com a água suja e ensaboada, depois as lágrimas, a violação dos sonhos, a morte do corpo.

E os precitos em terror desejam que a noite não cesse.
Ao invés dos gritos fantasmagóricos do dia, querem o pensamento a cirandar naquele espaço confinado e escuro. Só ali podem fingir que existem, que a vida também lhes pertence, e encobertos do mundo sorriem um sonho em que são livres das promessas e do medo.

Antes a dormência da escuridão.
Antes o som do silêncio e o vazio da vida em que nada acontece, do que aquele amanhecer nubloso de mais um dia de angústia e de dor.

Dor sem dor, porque ali a dor não dói.

Lugar habilmente escondido do sol, onde as palavras não vivem e as cores não se soltam. Que evapora a vida. Gládio que fere e se oculta das estrelas distantes e ignotas.

E os anátemas esquecidos pedem a Deus que baralhe a vida e dê de novo.

Um renome.
Qualquer coisa que apague o passado. Um interlúdio do dia que os livre do sobressalto e da culpa déspota.

Um gesto, mesmo insignificante que seja, um sorriso, um perdão, um poema dum poeta que se inspira e se revela.

Um poema,
Uma vida,

Dêem-lhes um poema,

Dêem-lhes um poema e uma vida.

 

Luís Paulo
 

sábado, 17 de maio de 2014

Dias demorados


Todos os dias vou á rua com a minha Lady.
Nas manhãs mais vagarosas, meto por um pequeno arvoredo que cinge o meu pequeno bairro.
Ali, vem-me o cheiro dos pinheiros, o chilrear dos pássaros, o harmonioso e belo canto dos rouxinóis e isto enche-me a alma.

Não tenho a culpa.
Fico assim…

Mas mesmo que tivesse, não podia fazer nada.
A alma quer, o coração exige, a mente aprecia.

Há uns dias atrás, as andorinhas queriam ir embora por motivo de falsa primavera.
Hoje estão aí, quentes como os dias.

 

Luís Paulo

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Ausências


A noite estava fria,
o equador já sem vida,
O rosmaninho revolto na paliçada concedia um véu translucido de traços suaves na noite
no alpendre o teu espaldar não tinha ninguém,
deserto ártico,
escuridão
no rosto tatuado a desilusão
A noite avançada,
o vento norte,
horas tardias,
a mente em convulsões transgénicas,
a morte, a vida,
A desordem, o caos, o sonho!

E tu,
eras um perfume ténue que se desvanecia  no tempo
no teu espaldar vazio, esquecias as núpcias da tua mocidade
elegias a utopia, a escusa
as vozes, os murmúrios, os suores,
as janelas embaciadas
a vida, a tua vida
era,
solenidades noturnas

 
Luís Paulo
Pintura_Quando rompe a manhã_Richard Johnson

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Amar em Silêncio


… Sentei-me a descansar um pouco onde nos sentávamos meu amor,
Sim, eu sei que prometi não voltar,
mas o dia estava tão lindo, o sol brilhava, e há tanto tempo que não saía de casa.

Construí um pequeno passeio a caminhar um pouco.
Depois…
depois, ouço meus passos ecoar no silêncio frio do meu coração e lembro-me que foste o meu caminho…

Desculpa meu amor,
mas sem ti não sei que fazer,
para onde ir,

Assim,
sento-me aqui e escrevo,
Não!
Escrevo apenas palavras que vagueiam soltas e que o meu coração já não consegue segurar,
Escrevo os teus gestos,
as palavras que revelavas, tão doces que me adormecia a noite
o teu amor, que me fazia esquecer o medo
além disso meu amor,
é aqui sentado que me sinto mais perto de ti,
olho o passado,
vejo as tardes onde passeávamos de mãos dadas, a tua voz, tão clara, tão meiga, o teu sorriso desafogado que abraçava o mundo

Ah! Se pudesse emoldurar o tempo!
O tempo em que eras a minha estrofe,
meu oboé de Chopin
Ah! Se pudesse,
pendurava aquele tempo no meu quarto e tinha-te todas as manhãs!

Estou a ficar velho meu amor.
E agora…
que me importa o tempo que me sobra?!
Tu eras o hífen que me juntava á vida,
vida que ainda me autorizava sonhar, e que agora é um fardo que carrego sem esperança.

Há esperança na morte?
Por vezes dou por mim a invejar quem morre,
 Hoje, a minha esperança é que a usura do tempo seja veloz e me leve até ti!

 “Prometes que vais ser feliz?” Dizias
Prometi que sim, nunca te negava nada.
Menti!
não consigo aguentar mais a promessa,
não consigo ser feliz sem ti, meu amor…
não consigo amar-te mais tempo em silêncio,
não consigo morrer meu amor!

 
Luís Paulo

 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Um Novo Natal


Havia despertado cedo.

A noite tinha sido inquieta e o sono agitado.

Acordara cansado, possuía o rosto suado, os sulcos violáceos á volta dos olhos acusava a fadiga da noite desassossegada. Levantou-se com dificuldade. Subiu o estore da janela do quarto e olhou o céu. Surpreso, viu que o sol brilhava já o começo do novo dia.  

Intuía que alguma coisa de anormal estava a acontecer, era como se um sexto sentido lhe acenasse algo de invulgar. E este sol, este estio, testemunhava a sua incerteza.

Era Natal, época comummente de frio, em alguns lugares inclusive a neve dava um perfume especial á quadra, mas, invulgarmente ao habitual estava uma manhã de estival.

Intrigado e curioso, arranjou-se e saiu á rua. O sol ainda jovem acariciou-lhe o rosto barbeado, o que lhe despertou maior apreensão. Estranhou também a ausência da neblina causada pelas chaminés e da essência frequente das lareiras.

Iniciou a caminhar pelo passeio a descer a rua. Preocupado, olhava furtivo ao seu redor. Todo o seu rosto era incredulidade. Tudo era silêncio. Não acontecia aquele burburinho das filas para as compras, para os presentes, para o bacalhau, para o marisco e para os doces. Ao contrário do que era prática, nas caixas ATM não faltava dinheiro.

As pessoas passavam e desejavam bom Natal… boas festas. Mas não era aquele retinir de bom Natal hipócrita usual, em que o hálito de amor passava e o resto do ano esgrimiam conveniências, lucros e ganhos desonestos. Não era aquele desejar falso de Natal, em que as guerras de interesses se entrincheiravam, em que as quezílias retornavam, assim que a quadra passasse. Depois, seguidamente chegava dezembro, o mês do armistício, a hipocrisia regressava e o amor espalhava-se. Não! Não era esse desejar de Natal! Era um Desejar de Natal franco, sincero e cheio de amor.

Caminhava pelas ruas e o desconforto inicial principiou a falecer. As pessoas falavam-lhe de uma forma franca, leal, de uma forma afetuosa, com sentimento puro na voz. O dia pareceu-lhe mais limpo, o sol pareceu-lhe brilhar com um brilho diferente, começou a sentir-se bem, sorriu, pareceu-lhe que respirava autêntica paz.

Foi com gáudio que contemplou que o Pai-Natal não vinha gordo, empanturrado de bacalhau, de marisco e de doces. Não aparecia carregado, com dificuldade em andar para entregar os presentes aos meninos ricos, presentes caros, esquecendo-se das crianças pobres, desfavorecidas, que passavam frio, que passavam fome e que nada tinham. Crianças que não imploravam consolas ou computadores, não rogavam telemóveis ou bicicletas, bradavam apenas em silêncio um casaquinho, um cobertor, meias, sapatinhos e uma sopinha para aquecer a alma.

O que viu foi um Pai- Natal isento, um Pai- Natal que não diferenciava os ricos dos pobres, um Pai-Natal que em lugar do saco dos presentes, trazia o coração cheio de amor, e oferecia esse amor com a mesma simetria para com todos.

As pessoas acercavam-se dele e mostravam-lhe um mundo novo. Um mundo onde a ganância, o odio, as aversões, as antipatias, as lutas e as guerras de interesses haviam sido descontinuados. Um mundo em que todos juntos haviam extinguindo a pobreza, a fome, a violência. Um mundo em que a lei era o amor. Um mundo em que as coisas anteriores haviam passado.

O coração encheu-se-lhe de gratidão e alegria. Sorrindo, com as mãos nos bolsos, seguiu a assobiar uma canção de Natal.

 

Luís Paulo

 

 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Saudades

Hoje, vou descansar as saudades fora de mim...
Não quero pensar em nada.

Luís Paulo